Meu pai – “O rei do churrasco”

 

Se as memórias são ligadas aos cheiros, e acredito que sim, então há uma vida inteira que pode ser contada cada vez que acendemos a churrasqueira.

Fui convidada para a inauguração do resplandecente “espaço gourmet” na casa do meu filho mais velho no final de semana passada. Netos, filhos, noras e no centro de tudo uma boa churrasqueira a gás. Extasiada com o resultado delicioso e tão limpo, não pude deixar de lembrar do meu pai brigando com o carvão que teimava em queimar nosso almoço, não sempre, mas o suficiente para fazê-lo repetir sua célebre frase: “Como prefere seu bife queimado?”

Um pilar de fumaça da velha churrasqueira lá de casa, subia pelos ares todas as manhãs de domingo. O churrasco era lei imposta pelo meu grande herói, meu pai, que autointitulava-se “O Rei do Churrasco.”

Nessa época não se falava sobre os malefícios que a fumaça do carvão pode exercer sobre nós, e tão pouco se imaginava que o carvão libera alcatrão e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos…soubesse disso, talvez meu pai teria se tornado “O Rei do Espaguetti.”

Algo para todos

Para meu pai, o churrasco sempre ia muito além dos aromas mais suculentos conhecidas pelo homem mortal. Ele acreditava no lema “Churrasco une as pessoas.” É uma noção infantil, eu sei, mas ele imaginava todos nós, sentados em torno de uma grande mesa, comungando e ansiosos pelo churrasco perfeitamente executado. Iríamos comer e festejar, todos ostentando um pouco de molho de maionese em nosso rosto e um agradável sentimento de satisfação profunda em nossas barrigas.

Nós, as crianças, não compreendíamos porque, já logo após o café da manhã, lá estava meu pai acendendo a churrasqueira –  e o cutucávamos “o pai está com pressa”, e ele nós respondia sabiamente (e porque é verdade) “qualquer coisa que vale a pena fazer nesta vida, vale a pena fazer lentamente – acender as brasas, assistir o fogo vindo à vida, e as nuvens de fumaça subindo aos céus.”

Na verdade, havia uma alegria simples naquele ritual dominical. Para meu pai que escolheu o caminho cênico para o almoço em família,  a fumaça, para melhor ou para pior, fazia parte e todos em casa devíamos nos alegrar com isso.

Esta alegria para com o churrasco e fuligem deveria ser espalhada e recebida de forma imparcial. Nem todos correspondiam. Lembro minha mãe resmungando pela casa…correndo e fechando as janelas…varrendo e espanando os pozinhos pretos que cobriam as superfícies.

Entre a eventual carne queimada, as reclamações da mamãe e a fumaça subindo suavemente, meu pai encontrava poesia nas chamas e na comunhão das brasas, onde o churrasco era a causa de todo contentamento.

Muito tempo se passou. Ficaram as lembranças do meu saudoso pai, do almoço em família, onde tios, primos tinham tantas novidades para contar.

Hoje, as conversas são antecipadas pelos Whatsapps, Facebooks, e-mails e aquelas brasas, instáveis e caprichosas, que exigiam cuidados constantes, deram lugar à uma moderna churrasqueira a gás que promete, e consegue, ser espetacular. Meu pai certamente adoraria exercer suas habilidades de “chef” churrasqueiro com uma previsível e controlável chama. Minha mãe agradeceria.

 

 

Agradecemos a este e-mail inspirador enviado por Dinah Avezzani  –  mãe de um consumidor Evol – e pela oportunidade de publicá-lo. 

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